Interessante pensar na evolução das coisas. Há muito tempo eu fotografo. Há muito tempo eu estudo fotografia, mas por volta de 2010 (ou até antes) comecei a me sentir travado, com minha fotografia estagnada em um aprimoramento técnico que posso dizer avançado, mas onde faltava algo, um conteúdo a mais do que estava ali na imagem, além do fato que eu também pensava que a fotografia se limitava ao que estava na sua imagem.
Cansado dessa rua sem saída resolvi experimentar qual seria o meu processo evolutivo fotográfico de uma maneira que pode-se fazer um bom paralelo com o darwinismo: saindo da minha zona de conforto fotográfica e vendo o que sobreviveria dessa seleção natural. Sendo assim, em 2012, na última semana de matrícula e após comprovar in situ que havia um bicicletário, me increvi em uma pós-graduação em fotografia.
Antes disso, pensando em livros/textos sobre A Fotografia e não De fotografia, eu já tinha lido o clássico Sobre Fotografia, da Susan Sontag, e nem consigo lembrar se eu não entendi nada do livro na época (parece com o que me lembro da matéria química quântica, durante o bacharelado em química: hoje não lembro nem do que tratou a matéria). Sem referências, sem base, na época acabou sendo um livro de curiosidades com alguns nomes a pesquisar e uns parágrafos interessantes.
Na pós, graças a orientação de alguns professores foi diferente, fui apresentado a Flusser, Benjamin, Dubois, Barthes e estudos como semiótica, história da arte etc. (bem que fui apresentado à história da arte com a inexistência de um professor, mas continuei - e continuo - por conta própria). E estou falando de ser apresentado, eu estaria mentindo se dissesse que entendi muita coisa na época, mas pelo menos fui apresentado e soube da existência deles, o que é um grande começo.
O tempo foi passando, meu olhar fotográfico e, mais que isso, meu pensamento sobre A Fotografia foi mudando. De uma leve crise existêncial fotográfica, onde eu não tinha mais muita vontade de fotografar eu acabei evoluindo para uma profunda crise existencial fotográfica, onde praticamente parei de fotografar, mas no final tanto eu, quanto a fotografia, acho que sobreviveram.
Hoje, passado alguns anos, parte do que estudei na época eu digeri, parte ainda está no estômago sendo processado, parte vomitei e parte (acho que) consegui incorporar. Além disso, este ano resolvi reler alguns textos/livros que havia lido naquela época ou antes, como o próprio livro da Sontag, que há 1 ou 2 meses passou a fazer sentido deixando de ser apenas algumas curiosidades (mas em todos livros ainda tem trechos que acabo entendendo só como pedaços, sem realmente conectar tudo - e aí vejo como o que me faltava era base e que ainda tem bastante caminho pela frente).
E o que me inspirou a escrever esse breve texto sobre evolução do pensamento fotográfico (acho que vai ser esse o título, decido isso já revisando o texto) foi outro autor, que devo ter lido pela primeira vez por volta de 2015, 2016 e que, na época, assumo que queria encontrá-lo com a boca costurada como um sapo em uma encruzilhada, o Juan Fontcuberta.
Hoje (dia 30/07/2020), alguns anos depois de ter odiado aquela primeira experiência de leitura (mas bravamente fu até o final) resolvi (ou melhor, tive coragem) de pegar outro de seus livros e começar a ler. E estou adorando! Em um final de tarde/começo de noite foi metade do livro e entendendo muitos conceitos interessantes, novos pontos de vista, aprofundando o pensamento e tendo novas referências que me ajudam a pensar em alguns problemas fotográficos que tenho procurado uma solução (ou várias, mesmo que seja perceber que não há solução) há algum tempo.
E como praticamente todo mundo que conheço da área de exatas (minha primeira formação é em exatas), antes eu achava que a área de humanas era só enrolação. Hoje vejo que não é bem assim. Continuo achando que é muita enrolação (na maioria dos casos), mas uma enrolação baseada em uma lógica própria e que não escapa das outras áreas de conhecimento onde, sem a base, você não entende algo mais aprofundado.
E só para ilustrar o texto com algumas fotografias (afinal o mundo está inundado, ou melhor, afogado nelas), abaixo algumas imagens do que eu considerava meu auge fotográfico na época dessa virada (tive uma exposição com essa temática em 2013) e outras do que considero meu auge fotográfico hoje, acho que não preciso apontar qual é qual.
Mas até o auge não é fixo e, se for pensar fazendo uma analogia matemática com o ponto onde a derivada da função é zero, ou seja, seus pontos de máximo ou mínimo, também não vejo como uma função crescente, mas algo periódico como uma senóide, com seus pontos de máximo e de mínimo se alternando com o tempo.
O jeito é continuar estudando, alimentando cada vez mais essa minha profunda crise existencial fotográfica e com isso cada vez mais pensando essa simples pergunta que muitos fotógrafos provavelmente nunca pararam para pensar: O que É a Fotografia?
Obs: nos últimos parágrafos desse texto, usando como exemplo outros textos que já li, diferencio fotografia (com minúscula) de Fotografia (com maiúscula). O fotografia relaciono a uma (ou mais) imagens fotográficas, como as que ilustram o texto ou o as que você pode ver ao ser redor. Já o Fotografia está relacionado ao tema em si, ao seu significado, ao seu conteúdo, sua existência por si só. Uma separação de um indivíduo para o pensamento em uma espécie.
Texto publicado originalmente por por Tacio Philip em 30/07/2020.
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